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EXPECTATIVAS PARA A EDUCAÇÃO NO MUNDO PÓS PANDEMIA

Conversamos com 3 profissionais da educação sobre o reflexo da pandemia no ensino do Brasil. A equipe EAD.LINK contatou uma supervisora escolar e dois professores para saber sobre suas expectativas para a educação no mundo pós pandemia.

SOBRE OS ENTREVISTADOS

Susana Medeiros Cunha, Me.

Mestre em Tecnologias da Informação e Comunicação (UFSC). Atualmente é professora universitária e supervisora escolar no município de Imbé/RS.

Lucas Cechinel, Me.

Mestre em Educação (UNESC). Atualmente leciona na educação básica e ensino de jovens e adultos em Criciúma/SC. Autor do canal Lucas Cechinel.

Schirley Scheffer, Me.

Mestre em Ensino de Física (UFSC). Atualmente é secretária escolar e professora de física em Criciúma/SC.

O vídeo acima apresenta a entrevista que fizemos para os profissionais de educação, e a seguir apresentamos a versão escrita da reportagem:

Fale um pouco sobre a sua experiência na área educacional, incluindo a sua familiaridade com tecnologia educacional.

Lucas Cechinel: Na graduação em geografia eu comecei a ter um diálogo com a tecnologia, porque nós tínhamos uma formação ligada à tecnologia .Ou seja, algumas disciplinas já forneciam a instrumentalização com alguns aplicativos e também softwares. Então desde ali eu comecei a me interessar muito por tecnologia. E a partir de 2012, quando entrei no SESI Escola, as formações continuadas e tudo o que era oferecido, principalmente o pacote Google for Education, acabou despertando mais interesse. Em 2012 eu ingressei no curso de Licenciatura em Informática. Tinha bastante afinidade com tecnologias, mas ainda estava buscando um espaço que privilegiasse também as noções técnicas porque tinha ali a concepção de lidar, de como usar um celular, como usar um computador, como usar aplicativos e softwares comuns mas na realidade não tinha conhecimento técnico nenhum. A partir desse curso eu acabei adquirindo determinado conhecimento técnico e desenvolvendo meu site, desenvolvendo o canal no Youtube e a partir desse momento, comecei a ter um diálogo que eu considero um pouquinho mais efetivo com tecnologia.

Schirley Scheffer: Eu tenho 49 anos, então a tecnologia veio vindo aos pouquinhos para mim. Quando eu comprei o primeiro computador, eu não sabia nem ligar. Eu só perguntei ao vendedor: “Como é que liga?” Ele disse: “Você vai neste, neste botão. E desliga: ai neste, neste botão.” E então eu disse: “Tá bom, deixa comigo agora!” E eu acho que quando a gente quer aprender alguma coisa, a gente tem que ir atrás. Quer dizer, hoje a Internet lhe dá muita possibilidade de conseguir o que você quer. Tem que se dispor a isto, senão não adianta. Aí não adianta ficar na reclamação, sabe? Então esta é a minha experiência. É normal, só porque eu acho que a facilidade que lhe dá é a busca com a qual você vai atrás das coisas também. Porque eu sou uma servidora de 60 horas. Não é como se eu tivesse tempo livre, mas eu tenho que me dispor. No ano passado eu trabalhei bastante com a questão da tecnologia com o REXLAB. Eu aprendi, eu não imaginava, eu sou uma professora de física, mas eu não imaginava que existia experimento remoto de física. Então aos poucos você vai aprendendo, você vai descobrindo.

Susana Medeiros Cunha: Na parte da educação, eu comecei mesmo a me interessar e me apaixonei quando eu comecei a fazer a graduação em pedagogia. Com a minha graduação na área de pedagogia eu também fui conhecendo um pouquinho mais das tecnologias da educação, as TICs. A proposta do meu TCC foi isso: implantar o EAD dentro da instituição onde eu estava trabalhando. Era uma universidade corporativa do Hospital Mãe de Deus em Porto Alegre/RS. Eu implantei o MOODLE e a gente trabalhava com treinamentos institucionais em e-learning. Dali para frente eu fiz a especialização em informática na educação. Comecei também a trabalhar na área da educação propriamente dita, pois antes eu só trabalhava na área de treinamentos em empresas. Em 2010 eu fui trabalhar com graduação em EAD na graduação em pedagogia, em que estou até hoje. Depois eu comecei o mestrado em TIC na Universidade Federal de Santa Catarina, que concluí ano passado. A minha pesquisa foi voltada a trabalhar as tecnologias educacionais na educação básica. Foi feita a minha pesquisa nos anos iniciais com uma turma de quinto ano onde a gente levou as tecnologias para dentro da escola. Hoje já são em torno de 18 anos trabalhando com tecnologias e tecnologia na educação..

Qual a sua opinião e perspectivas sobre a tecnologia educacional?

Lucas Cechinel: A minha perspectiva é que a tecnologia sempre deve estar presente na educação. Ainda mais neste momento em que a maior parte da população, a maior parte dos alunos possuem um celular. E se possuem uma conexão com rede, então conseguem ver videoaulas, conseguem desenvolver trabalhos pela sala de aula ou pela plataforma que for. Nos anos 2000, a educação toda era baseada em enciclopédias e no livro didático. O acesso à Internet nos anos 2000 no Brasil se dava por Internet discada e raríssimas casas com computadores. No final das contas, eu vejo que a tecnologia hoje veio para ficar na educação e eu acho que ela vai transformar a educação para dar uma visão de século 21.

Schirley Scheffer: A tecnologia educacional não pode ficar aquém ou dizer que não existe. É um caminho sem volta. Nós fomos pegos de surpresa, ou seja, o professor que nunca pegava um computador ou não escrevia um texto – ele teve que postar! Se vira meu querido, se vira! Foi assim, mais ou menos assim. Ah, teve capacitação? Teve. Teve capacitação do estado. Você acha que vai aprender tudo em 30 dias, que seja 45? Não é fácil. Então agora está sendo aprendizado por erro, né? Tentativa e erro. Tento, erro, faço de novo. Errei, faço de novo até acertar. É assim que está sendo. Claro, agora estamos em final de julho, mas eu te garanto que muita gente aprender. Não devagar, na marra. Tentativa e erro. A colaboração entre os colegas é muito importante.

Susana Medeiros Cunha: Poder estar levando cada vez mais as tecnologias, que só vêm a agregar na sala de aula, diante de todo esse problema que estamos vivendo agora… É uma coisa que vai ficar, e as pessoas vão ter, de alguma forma ou outra, aceitar. Tinham algumas que eram muitas resistentes, então acho que a tecnologia vai dar um impulso. Está devagar, apesar de ter muitas escolas que já trabalham com isso. Mas no ensino público ainda está muito devagar, pela falta de tecnologia na escola ou por o aluno não ter o recurso em casa. Apesar de eu notar na aplicação da minha pesquisa que mesmo com pouco recurso a gente consegue, vai muito mais do docente querer estar aberto.

Como você percebeu que outros professores reagiram às aulas remotas?

Lucas Cechinel: Este momento de pandemia foi um grande divisor de águas. Principalmente na minha concepção. Eu atuo no sistema privado e no sistema público. No sistema público, nós tivemos um grande colapso porque a maior parte dos professores sequer utilizava outras ferramentas além do e-mail. Então a maior parte dos professores sempre utilizaram aplicativos comuns, como editor de texto, e usavam o e-mail para enviar seu trabalhos e provas. Eu me coloco no lugar desses professores formados há 20, 30 anos porque no final das contas foi uma formação totalmente diferente. Este momento da pandemia provocou muitos profissionais só que eu vejo que outros profissionais também se sentiram provocados a ponto de buscar aprendizagem. Eu vejo que alguns colegas ainda olham torto para a tecnologia, mas muitos colegas, o que foi surpreendente, buscaram esta dinamização. Vários profissionais vão passar a utilizar ainda mais as tecnologias em sala de aula.

Schirley Scheffer: Alguns aceitaram bem; outros, não. Outros ainda têm uma dificuldade grande. Eu como secretária escolar percebo, por exemplo: nós temos um programa chamado Professor Online, onde os professores têm que postar suas notas lá, suas avaliações lá. O que acontece? Muita gente não posta. E a média gera daquilo ali. Se o professor posta a sua nota, a nota é gerada automaticamente e a média dos alunos fica certinha. Não preciso mais eu digitar a nota. Mas tem gente que é arredio! Tem que estar em cima mesmo, porque eles não querem. Não por falta de recurso, mas porque não querem. Outros não, outros aceitam de boa. Vão aprendendo, se virando. Então a colaboração existiu.

Susana Medeiros Cunha: Bom, lá na escola elas ficam muito apreensivas. Claro, né, porque é totalmente diferente. A casa caiu de um hora para outra! Chegou em um dia e: “Olha, amanhã não vai mais ter mais aula, vocês têm que preparar. E como vai fazer?”. E a escola está localizada em uma comunidade de baixa renda, então elas ficaram preocupadas com isso. Eles não teriam acesso. Como a gente vai fazer? Eles não vão conseguir acompanhar. Então elas ficaram muito apreensivas e a gente teve professores preocupados realmente com as crianças. Como eles vão aprender, se vão conseguir. Principalmente na parte da alfabetização, que é a mais complicada. Os mais velhos já conseguem acompanhar, com certeza. A gente vê agora que eles conseguem realmente, mas com os pequenos é mais difícil. Precisa muito mais do acompanhamento, da ajuda dos pais. Então elas tiveram uma preocupação muito grande com isso. Não se tinha um ambiente, não se tinha tempo para preparar, foi de um dia para o outro. A gente começou a utilizar o Facebook. Criamos grupos para as turmas. Mas são poucos que têm este acesso, então a gente também estava imprimindo todas as aulas e entregávamos aos pais, que estavam indo na escola semanalmente para retirar. Também houve um período do distanciamento social em que a gente retornou, apenas os professores, na escola para poder fazer isso e se organizar para entregar as atividades.

Quais são as suas expectativas para a educação no mundo pós pandemia?

Lucas Cechinel: O mundo pós pandemia vai ser bastante diferente do que nós estamos acostumados porque não só na educação, mas em vários segmentos, nós tivemos grandes rupturas. E estas rupturas, principalmente no segmento da educação, vão provocar, além dos estudantes, também as instituições. Eu acredito muito, por exemplo, na produção didática. Ou seja, eu acredito que algumas instituições vão começar a desenvolver materiais e estes materiais vão começar a ser comercializados. Estas rupturas acontecem de tempos em tempos. Para quem fez o ensino médio na década de 90, seria inimaginável usar um computador. Para quem fez o ensino médio nos anos 2000, já usava o computador, mas seria inimaginável usar este computador com Internet, uma Internet rápida. No final das contas, eu acredito que este mundo pós pandemia vai trazer muitas transformações. A cultura digital vai fazer parte do currículo da educação básica. Em algumas instituições já faz parte, mas para quem está na educação básica e pública, ainda não.

Schirley Scheffer: Ela obrigatoriamente vai mudar porque é impossível a gente continuar da mesma forma para sempre. Agora o próprio governo percebeu que 100% não tem como ser presencial. A gente vai sempre ter esse lado on-line. Porque no ano passado, por exemplo, eu fazia assim com meus alunos (usar tecnologia educacional). Eles gostavam! Porque se você dá uma atividade (online) para eles fazerem, você pode dar um tempo para eles fazerem, mas não precisa ser aquele tempo da sala de aula. Ela (a tecnologia) é uma abertura para após. Sai do quadrado da sala de aula e vai para o mundo. Então o aluno ficou seu, mas em outro espaço que não seja só aquele da sala de aula. Ser professor é desprender de preconceitos com relação a pessoas de qualquer jeito, qualquer espécie. De qualquer coisa você se desprende. Aos poucos, você aprende na marra um pouco de coisas boas. Eles odiavam química e física, mas diziam “Professora Schirley, mas de você eu gosto!”. Você tem que ter respeito com o outro que está na sua frente. Com aquele jeito que ele vive, da maneira que ele vive, e tentar se colocar no lugar dele. Então é essa questão também Com tecnologia, também. Eu tenho computador bom, mas aquele que não tem? E aquele que a Internet trava? Ele não tem, não dá. Eu acho que daqui para frente o governo tenha um olhar mais carinhoso com essa questão de tecnologia nas escolas. Você viu como precisou? E não aceitavam de jeito nenhum. “Ai, não precisa de técnico de informática”, “Ai, não precisa de não sei o que?”. Está vendo como precisou? E se já tivéssemos o costume? E se já tivéssemos ao menos um pouco disso?

Susana Medeiros Cunha: O retorno, esta educação pós pandemia, ainda não vai se normalizar. Não acho que vai ser como era antes. Por ter forçado este uso de tecnologia, os professores também vão se estimular um pouco mais, vão ter tido contato com tecnologias. Então acho que vai ser necessário suprir essa necessidade, essa falta que os alunos tiveram esse ano. Só a aula presencial vai ser pouco e a gente vai precisar complementar com aulas remotas. Eu acho que esta perspectiva de melhora ainda não está clara e não vai ser no próximo ano. 2021 ainda vai ser de muita dificuldade, principalmente porque basicamente este ano, se eles conseguirem assimilar 20, 30% do conteúdo, a gente tem que ficar feliz, porque a situação não está fluindo. Esta aprendizagem vai ficar defasada, eles vão voltar ainda mais perdidos. Vamos precisar trabalhar dois anos em um. Acho que vai ser bem difícil e as tecnologias vão nos ajudar nisso. A aula vai precisar ser trabalhada muito mais estilo sala de aula invertida. A gente vai precisar trabalhar com os conteúdos em casa e tirar as dúvidas, fazer exercícios em sala de aula. Até comentei isso lá na escola.

Como podemos ver, a partir dos relatos dos profissionais de educação, a pandemia vai revolucionar a educação que conhecemos hoje – e isto tem vantagens e desvantagens.

E você, o que achou da entrevista? Não esqueça de deixar seu comentário na seção abaixo. E compartilhe este post nas redes sociais para que seus amigos também possam ler sobre as expectativas para a educação no mundo pós pandemia.

SOBRE A AUTORA

Isabela Nardi da Silva possui mestrado em Tecnologias da Informação e Comunicação pela Universidade Federal de Santa Catarina e é bacharel em Tecnologias da Informação e Comunicação com aperfeiçoamento em Educação Inclusiva e Tecnologias Assistivas, TIC na Educação e Matemática. Possui experiência com docência nos níveis de educação básica, ensino superior e pós-graduação, capacitação docente e tecnologias educacionais. Acesse mais informações neste link

One response

  1. Achei excelente as entrevistas e conclusões dessa matéria. Os entrevistados estão de parabéns.

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