saúde mental do professor

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REFLEXOS DA PANDEMIA COVID-19 NA SAÚDE MENTAL DO PROFESSOR

Conversamos com 3 psicólogas para discutir o impacto da pandemia na saúde mental do professor. A equipe EAD.LINK contatou uma psicóloga organizacional, uma neuropsicóloga e uma psicóloga junguiana e pediu que dessem conselhos para professores passando por este período de adaptação. Este é o segundo episódio de EAD.LINK Entrevista, série na qual entrevistamos especialistas para falar de assuntos relacionados a educação. Veja o episódio anterior aqui.

SOBRE OS ENTREVISTADOS

saúde mental do professor
saúde mental do professor
saúde mental do professor

Moramei de Moraes, Me.

Neuropsicóloga. Tem experiência com saúde coletiva, avaliação psicológica, educação especial, psicologia organizacional e psicologia do trânsito

Karmel Nardi, Me.

Mestre em Tecnologia, Gestão e Inovação. Tem experiência com psicologia organizacional e atualmente trabalha como professora universitária

Janine dos Santos, Esp.

Psicóloga Junguiana. Tem experiência de 25 anos como psicóloga clínica

O vídeo acima apresenta a entrevista que fizemos para as psicólogas, e a seguir apresentamos a versão escrita da reportagem:

Fale um pouco sobre a sua formação e experiência

Karmel Nardi: Desde a primeira experiência profissional na área atuei como psicologa organizacional e clínica. Depois de um tempo, fiz uma especialização em Gestão de Saúde na Universidade Federal de Santa Catarina. Fiz um MBA em Gestão de Pessoas e há dois anos concluí o mestrado em Tecnologia, Gestão e Inovação. Hoje sou professora e atuo com os níveis técnico, graduação e pós-graduação em uma instituição de ensino. Também tenho um projeto de empoderamento feminino chamado A Essência do Eu, onde nós trabalhamos com cursos direcionados para mulheres que buscam se desenvolver e principalmente ingressar nos ambientes tecnológicos.

Janine dos Santos: Há 25 anos sou psicóloga clínica. Faço bodas de prata agora, no dia 26 de agosto. Me formei em Psicologia em Itajaí, na UNIVALI. Depois disso, fiz uma formação em Psicologia Análitica e Psicologia Junguiana em Curitiba. Escolhi esta referência porque é algo com o que me identifico – Jung, o psiquiatra.

Moramei de Moraes: Sou psicóloga e especialista em Saúde Coletiva, Avaliação Psicológica, Educação Especial, Psicologia Organizacional e Psicologia do Trânsito. São áreas que eu amo. A educação está no meu sangue porque eu cresci no meio de professores. Minha mãe era professora, então eu sempre via ela preparando aula, aquele monte de bichinhos. Era pedagoga. Eu pensava: “Ah não. Não quero ser professora. A mãe fica trabalhando até 23h, meia noite, fazendo coisas para que as crianças aprendam”. Então eu fui ser professora universitária, porque não precisa fazer tanto bichinho [risos].

Na sua opinião, quais os principais reflexos da pandemia na saúde mental do professor?

Karmel Nardi: Com o acontecimento da pandemia, nós tivemos uma necessidade muito grande de nos adaptar rapidamente e isto mexeu na rotina de muitas pessoas. E os professores acabaram trazendo a sala de aula para dentro de suas casas. De repente, os alunos tiveram acesso a tudo: à sua sala de estar, aos barulhos da sua casa. E esta adaptação nem sempre é fácil. Ela não foi e também não vem sido fácil. Mas nós podemos encarar como um desafio que nós estamos ultrapassando para que possamos sair dessa mais preparados, mais fortes. Uma das certezas é que nós precisamos nos desenvolver rapidamente. Então um ganho nós já temos neste sentido de ter de adentrar no universo tecnológico com mais intensidade num curto período de tempo. Em relação à saúde mental, nem sempre é fácil. A vida do professor virou do avesso. Eu, como docente, senti muito isso. Toda a adaptação causa um nível de stress que faz com que a gente sofra de uma certa maneira. Então eu acredito que a melhor opção seria usar a tecnologia ao seu favor já que não há muito como fugir desta evolução que está tão presente na rotina dos alunos. Usar ferramentas que possam lhe auxiliar. O que funcionou muito para mim foi a organização do tempo, a realização de cronogramas. Existe o aplicativo Trello, onde você faz listas de atividades que você precisa fazer. Acredito o professor deve parar um tempo para respirar e entender que vai dar conta e não é porque algo é novo que vai ser impossível. Porque não é. Nós estamos em um momento de ultrapassar as nossas limitações. Eu acredito que, embora esta pandemia vá terminar, eu espero que muito em breve, ainda assim nós vamos levar muito do que aprendemos para a sala de aula e as nossas aulas nunca mais serão as mesmas. Então vamos tentar tirar disso o melhor possível. E o melhor possível é o aprendizado e vamos tentar manter a calma, respirar e entender que tudo passa. Isto é um momento e este momento também vai passar. E você vai dar conta que se tornou um profissional ainda mais evoluído do que já era no sentido de entender melhor as coisas em relação ao universo tecnológico. O conselho que eu dou é: se organize, realize cronogramas, respire. Você vai dar conta.

Janine dos Santos: A gente vai ter que entender que saúde mental do professor, neste momento, é um objeto não só de muita reflexão, mas de auto reflexão no sentido do autoconhecimento. Entender que toda esta mudança que o vírus trouxe para nossas vidas, que todo este distanciamento social, mudanças de atitude, os hábitos, o medo, que tudo isso pode potencializar, além de ser algo muito novo. Novo no sentido de ter de reconstruir a forma como a gente trabalhava. Desconstruir a maneira anterior e construir uma nova maneira. Fazer um luto de como era antes e nascer um novo professor, uma nova professora. Precisa de muito tempo para processar tudo isso, com muitos sentimento aflorando dentro da gente. Principalmente a questão do medo e do stress. Você perde o controle de como sempre produziu até então para aprender a produzir de um novo jeito, que não é o que a gente tinha se preparado para fazer. Isto mexe com a estrutura de segurança e isto potencializa sentimentos antigos. O evento dispara o estado. Se eu vou a um lugar bacana, legal, feliz, vai ser um evento bacana que vai disparar um estado de alegria, felicidade, prazer. Se eu fico na eminência de viver com um vírus que pode me contagiar e me leva no limite da vida e da morte, isto vai disparar tensão, angústia, medo, perda de controle e de autonomia. Então até você escrever isto dentro da sua memória e reescrever uma nova forma para atuar enquanto ator na educação, cria uma janela onde realmente pode disparar uma ansiedade. São medos potencializados em mim que podem ser somados a todas as outras coisas que eu já trazia na minha bagagem.

Moramei de Moraes: A gente pode dizer que existem reflexos positivos. No momento, não estou trabalhando com professores, mas eu conheço muitos. E tenho tentado mostrar para eles que existem aspectos positivos e negativos. Não é a questão online. É a ansiedade do professor e o medo de errar. O professor tem uma expectativa de perfeição. Quer ensinar o aluno virtualmente mas não quer que as variáveis independentes interfiram. Não existe isso. É claro que vai interferir. Há duas semanas, uma professora me disse: “Acredita que escutei a mãe do aluno dizendo, gritando para ele: “POXA, COMO VOCÊ É BURRO! Haja paciência para te aturar””. Coitada dessa professora. Imagine a criança de 2º ano do ensino fundamental ouvindo isso. A autoestima vai lá embaixo, ela se fecha, treme, não acerta mais nem o teclado. Eu penso também que o trabalho triplica, porque o professor tem que aprender uma atividade nova. Os professores que tem mais de 30 anos, se não estão neste mundo virtual constantemente, além de redes sociais, não conhecem outra linguagem. Então exige deles uma aprendizagem. Como também já ouvi relato de um professor – a criança disse: “Professor, vai demorar muito? Porque eu preciso comer na escola”. Uma criança que ainda precisa captar um conhecimento novo e o estômago pedindo comiga. Então qual é o aspecto positivo disso? É o professor entender a realidade de alguns alunos, que antes não compreendia. Outro aspecto positivo: para o professor que já domina a questão online, é muito bom trabalhar em casa. Eu, que não domino, amo! Depois que a gente pega este “vício”, fica mais fácil. Eu digo que de toda a situação a gente pode tirar prós e contras.

Que conselhos você dá para professores neste período?

Karmel Nardi: Sabemos que não é fácil. Sinta-se acolhido. Você, como professor, não está passando por isso sozinho. Tenha calma. Calma e tranquilidade. Porque você vai dar conta. Então quando você for pensar em entrar em pânico, ou atende estes alunos que esquecem que temos uma vida além da sala de aula, entenda que é necessário dizer alguns nãos e fazer algumas limitações para que você possa continuar. E este é um dos grandes desafios. Há um medo muito grande em dizer não por medo de ser rejeitado. Mas faça o que é melhor para você. Esta é uma profissão maravilhosa e você transforma a vida de muitas pessoas. Mas nem por isso você vai deixar a si mesmo totalmente de lado. Não precisa ser assim. É possível conciliar e fazer com que dê certo sem que você precise se abandonar como ser humano. Então calma e tranquilidade. Você vai dar conta.

Janine dos Santos: Eu acho que é estar bem consigo mesmo para poder ter mais energia de ir para esta nova forma de estar construindo e passando conhecimento. Respeite seus limites e entenda que a adversidade vai potencializar sua criatividade. Então eu acho que o caminho é se saber, respeitar o seu próprio limite. Experimentar aos poucos e entender que o erro faz parte da jornada. Para curtir um novo conhecimento, a gente erra. Agradeça por toda a diferença que você está fazendo na sociedade. Com tantas dificuldades neste momento, você está atuando, entrando nas casas das pessoas via online, passando conhecimento, fazendo seu trabalho da melhor forma possível e se entregando da melhor maneira. Se valorize e respeite a situação. Estabeleça não só esta gratidão, mas este auto respeito e auto valor. Mas como se faz isso? É perguntando assim – Quem pensa aqui dentro? Quem acha? Como que eu estou fazendo esta relação destes dois “em mim” para sair com mais harmonia, com mais integridade? E mais gratidão por mim e pelo trabalho que eu realizo. É por aí.

Moramei de Moraes: Aproveite este momento para pensar: o que tem de interessante neste tipo de aula? Se eu aprendo a lidar com isso, com este tipo de aula, imagine as estratégias que eu vou ter quando eles estiverem na minha presença. Eu tenho dois filhos de 12 anos. Quanto mais eu aprendo do mundo virtual, mais eu me aproximo deles! O cérebro humano vai ser desenvolver até o momento em que você estiver morrendo. Como? Ah, se eu não conseguir mais andar, eu vou ter de aprender a usar uma bengala. Se eu não conseguir mais falar, eu vou ter de aprimorar uma maneira de falar de outra forma. Então desenvolva esta habilidade de outra forma.

A saúde mental do professor foi muito afetada com a influência da pandemia COVID-19. Com os conselhos fornecidos pelas especialistas, esperamos que estas mensagens de esperança confortem os ânimos.

E você, o que achou da entrevista? Não esqueça de deixar seu comentário na seção abaixo. E compartilhe este post nas redes sociais para que seus amigos também possam ler sobre os reflexos da pandemia na saúde mental do professor.

SOBRE A AUTORA

Isabela Nardi da Silva possui mestrado em Tecnologias da Informação e Comunicação pela Universidade Federal de Santa Catarina e é bacharel em Tecnologias da Informação e Comunicação com aperfeiçoamento em Educação Inclusiva e Tecnologias Assistivas, TIC na Educação e Matemática. Possui experiência com docência nos níveis de educação básica, ensino superior e pós-graduação, capacitação docente e tecnologias educacionais. Acesse mais informações neste link

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